Posicionamento do Leque Harmónico

O sistema de leque harmónico de Torres, que revolucionou a construção do violão, é caracterizado por um padrão de sete varetas (leques) que se irradiam a partir da boca do violão em direção ao cavalete.

  • Varetas Principais: Sete varetas de abeto fino e leve, posicionadas abaixo da boca do violão, em forma de leque. As varetas externas, próximas aos blocos das laterais, são mais inclinadas, enquanto as centrais são quase paralelas ao eixo do tampo.

  • Barra Transversal (Barra Harmónica): Uma viga transversal de madeira, geralmente de abeto ou mogno, posicionada abaixo da boca do violão e acima da fixação das varetas principais. Ela ajuda a reforçar a área do tampo mais sujeita à tensão e a modular a ressonância.

  • Placa do Cavalete (Bridge Plate): Uma pequena peça de madeira (geralmente jacarandá ou bordo) colada por dentro do tampo, onde o cavalete é fixado por fora. As varetas de leque se estendem até essa placa, ou terminam pouco antes dela.

  • Reforços: Pequenos reforços de madeira, como pastilhas de abeto ou cunhas, são frequentemente vistos nas extremidades de algumas varetas para dar suporte adicional.


Vista Lateral (Altura e Afinação das Varetas)

A "afinação" das varetas se refere à sua altura e ao seu perfilamento, que são ajustados para controlar a vibração do tampo.

  • Tampo Abobadado (Doming): O tampo de um violão Torres não é completamente plano. Ele possui uma curvatura sutil (cerca de 2 a 3 mm de altura no centro) que contribui para sua resistência à tensão das cordas e melhora a projeção do som.

  • Perfil das Varetas: As varetas são mais altas e robustas no ponto onde se encontram com a barra transversal. A partir daí, elas são perfiladas, ou seja, sua altura e largura diminuem gradualmente em direção às extremidades do tampo. As pontas das varetas, próximas ao cavalete e nas laterais, são finas e leves, permitindo que o tampo vibre livremente.

  • Varetas do Fundo e das Laterais: O fundo do violão também possui varetas transversais, que ajudam a estabilizar a estrutura. Elas são menos críticas para a projeção sonora, mas contribuem para a ressonância geral do instrumento.


Notas Construtivas com Medidas Médias Usadas por Torres

  • Comprimento de Escala: A escala padrão de Torres era de 650 mm, uma medida que se tornou o padrão moderno.

  • Diâmetro da Boca: O diâmetro médio da boca dos violões de Torres era de cerca de 85 mm.

  • Espessura do Tampo: O tampo, geralmente de abeto, era notavelmente fino e leve, variando entre 2,0 e 2,5 mm. Essa finura era compensada pela resistência do leque harmónico.

  • Dimensões da Caixa:

    • Comprimento do Corpo: Cerca de 480 mm.

    • Largura do Bojo Superior: Cerca de 270 mm.

    • Largura do Bojo Inferior: Cerca de 365 mm.

    • Largura da Cintura: Cerca de 230 mm.

    • Profundidade das Laterais: Variando de 90 mm na extremidade do braço a 95 mm na extremidade do fundo.

  • Madeira do Tampo: Abeto europeu (Picea abies).

  • Madeira do Fundo e Laterais: Jacarandá da Índia (Dalbergia latifolia) ou Cipreste.

  • Madeira do Braço: Cedro espanhol (Cedrela odorata).

  • Madeira da Escala: Ébano (Diospyros spp.).

Vista lateral do leque harmónico Torres


Vista lateral do leque harmónico Torres, mostrando como as varetas têm altura máxima no centro e vão afinando até quase desaparecer nas extremidades, permitindo que o tampo vibre livremente.



Detalhes técnicos do leque harmónico Torres

1. Estrutura geral

  • Configuração clássica: 7 varetas dispostas radialmente, levemente inclinadas, partindo de um ponto logo abaixo da boca até próximo ao fundo da caixa.

  • Algumas variações antigas de Torres usavam 5 ou 9 varetas, mas o modelo de 7 tornou-se o mais influente.

  • As varetas centrais são mais retas; as laterais têm mais inclinação, acompanhando o contorno do corpo.

2. Dimensões típicas

  • Altura das varetas: entre 4,5 mm e 6,5 mm no centro, diminuindo nas extremidades.

  • Largura: cerca de 5 mm a 7 mm.

  • Espessura do tampo (onde estão coladas): geralmente 2 mm a 2,5 mm em abeto ou cedro.

3. Função acústica

  • Controle de rigidez: impede que o tampo se deforme com a tensão das cordas, mas mantém flexibilidade suficiente para vibrar.

  • Foco de graves: as varetas distribuem a energia para as zonas laterais e inferiores do tampo, reforçando as frequências baixas.

  • Clareza nos agudos: a parte superior do tampo, mais livre, vibra com maior rapidez, favorecendo os agudos.

4. Materiais

  • Normalmente abeto europeu (Picea abies) ou pinheiro, pela relação resistência/peso.

  • Sempre coladas com cola animal quente — que cristaliza e transmite vibração melhor que colas sintéticas.

5. Outros elementos ligados ao leque

  • Torres usava travessas transversais (barras horizontais) combinadas ao leque para estabilizar áreas críticas do tampo.

  • Em alguns modelos, reforços finos na borda inferior aumentavam a durabilidade sem comprometer o som.


Curiosidade histórica:
Torres não tinha ferramentas de medição acústica, mas “escutava” e “apalpava” o tampo durante a construção para decidir a altura exata de cada vareta — um método puramente artesanal que muitos luthiers ainda praticam hoje.